Perfil
Francisco Neves23/03/2007
Motivado pela vida

Já são 17 anos dedicados à solidariedade. Aos 57 anos, o engenheiro Francisco Neves, superintendente do Instituto Ronald McDonald no Brasil, sabe que às vezes a vida tira de um lado para dar do outro. “Nada se compara à dor de perder um filho, mas a doença abriu meus olhos para uma lição de vida muito forte”, reflete Francisco lembrando a tragédia pessoal que vivenciou ao lado da mulher Sônia e de Carlos, o filho mais velho. Marcos, o caçula, faleceu aos 9 anos de idade, em 1990, de câncer.

Durante o tratamento de Marcos, no Memorial Hospital, em Nova Iorque, Neves ficou hospedado numa Casa Ronald McDonald, e foi ali que ele decidiu: “Precisamos disso no Brasil”. De volta ao país, e com muita coragem, Francisco Neves fundou, em 7 de novembro de 1990, o grupo de recreação infantil do Inca (Instituto Nacional do Câncer). Junto com Sônia e um grupo de aproximadamente 12 amigos, passou a realizar trabalhos voluntários no Inca, ajudando famílias que enfrentavam problemas semelhantes aos seus. “Formou-se uma corrente de solidariedade, que não podíamos desperdiçar”, relembra.  Desde então, ele não largou a causa do câncer infantil.

Em 1991, o McDonald`s voltou a cruzar a sua vida, quando a empresa dedicou a campanha Mc Dia Feliz ao Inca. Na oportunidade que se abriu, Francisco Neves sugeriu à direção nacional da rede de fast-food a implantação de uma Casa Ronald McDonald no Brasil. “Eu estava na sala de recreação do Inca e desci para o auditório com algumas crianças, onde acontecia uma coletiva de Imprensa. Quando me aproximei do presidente do McDonald’s no Brasil, Peter Byrd Rodenbeck, perguntei porque eles não criavam uma Casa em nosso país”. Dito e feito. Três anos depois, nascia em solo brasileiro a primeira Casa Ronald McDonald da América Latina, com  disponibilidade de 18 leitos. Realizado com a vitória, Francisco foi mais uma vez surpreendido com o convite para liderar o grupo responsável pela administração da Instituição.  

Em 1999, quando a empresa fundou o Instituto Ronald McDonald, com o objetivo de captar e destinar recursos às instituições que atendem crianças e adolescentes com câncer em todo Brasil, Francisco viu mais um sonho concretizado. “Hoje eu me sinto um privilegiado por participar de um movimento que vem mudando a mentalidade a respeito do câncer no país e que tem ajudado a conscientizar a população de que a doença tem cura e do quanto é importante o diagnóstico precoce”.

Vascaíno de família

Filho mais velho de uma portuguesa e um brasileiro, Francisco Carlos Neves nasceu no Rio de Janeiro e com o coração totalmente Vascaíno. “Vim de uma família simples e pobre”, diz com orgulho.  O pai, também Francisco, era pescador e a mãe Elisa, dona de casa. Da sua infância, Neves relembra o hábito de estar em família: “Éramos eu, meus pais e meu irmão José. O almoço e o jantar eram com todos juntos, reunidos. Havia o cultivo do estar em família, era muito bom, hoje em dia não se vê mais isso”, relembra Francisco, que ainda indaga: “Família foi feita para se relacionar não foi!?” Mas não só a família está na base da vida de Neves, casado com Sônia, também engenheira: “Prezo muito meus amigos. O pessoal da engenharia civil da UFRJ, por exemplo, se reúne todo ano, isso acontece desde 1974”, ressalta entusiasmado.

Após concluir a Faculdade, ele ingressou, em 1975, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), e mesmo com o cargo de analista de funções superiores, atuava como engenheiro. Foram 20 anos de dedicação ao Serpro. Em 1996, ele saiu da empresa federal e passou a ser gerente de Planejamento, Controle e Qualidade da SULTEC – empresa de engenharia. Em 1998, deixou o cargo e passou a se dedicar integralmente ao Terceiro Setor, à frente do Instituto Ronald McDonald. 

Alegre e apaixonado por futebol, junto com o filho Carlos e o neto Cadu, não perdem uma partida vascaína. “O meu filho já foi até mascote do Vasco”, salienta com orgulho. Além do futebol, que considera seu esporte preferido, Neves tem como hobby a leitura. “Adoro livros que contam a evolução do homem”. Interessado no desenvolvimento, aprecia livros que o remetam ao crescimento das cidades, aos relatos das diversas épocas a às conquistas da Humanidade.

Como bom carioca, é fã da MPB, mas também revela que é admirador dos Beatles. Bem-humorado, Francisco confessa por onde ele passa longe: “Da cozinha”.O máximo que consegue tirar do fogão é, como ele mesmo diz aos risos: “Um arroz de três camadas, isto é, queimado embaixo, mole no meio e cru em cima”. Entretanto, o que ele gostaria de aprender – de fato - é a arte da pintura, “Um novo desafio pra mim seria saber pintar, como engenheiro vejo tudo sob dois ângulos, pintar seria um desafio e tanto”, brinca.

Um eterno voluntário

Para Neves, exercer a responsabilidade social é um dever de todos: “É importante que cada pessoa pergunte para si mesma: “Eu sou um cidadão socialmente responsável?”. Ele exemplifica o Mc Dia Feliz. “No total são 30 mil voluntários por ação no Brasil, e isso é louvável”. Segundo ele, o voluntariado hoje é uma ferramenta individual que todo cidadão deveria exercer, e sugere mais: “As universidades deveriam ter disciplinas práticas de voluntariado nos seus cursos, é muito importante passar por esse tipo de experiência”, defende.

Ele crê que o governo e a sociedade podem fazer muitas transformações. Para Neves, que se denomina um eterno otimista, a política no Brasil poderá mudar: “Percebo que a mobilização está crescendo no país, quando a população exercer de fato sua cidadania, as injustiças e o que há de errado irão acabar”, sentencia.  Francisco sempre defende que seu compromisso não é colocar o peso dos problemas apenas nos governos e, sim, partir para ação. E vê no Terceiro Setor, a sua fonte de transformação “Vamos abrir muitas portas sem exercermos política partidária, mas ajudando a melhorar o país através de políticas públicas, esse é o dever do Terceiro Setor”.

Desde 1990, Francisco não pára de lutar, e afirma sem hesitar que ainda “existem novos desafios pela frente”. Sua contribuição não fica somente no Instituto Ronald McDonald, sua contribuição ficará para todos. “O importante mesmo é valorizar a vida”, resume o solidário e alegre Francisco. 

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